Eu te perdi

Você partiu aos poucos. A essa altura, encontrávamos em polos extremos.

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Publicado originalmente:

Eu te perdi IV

Eu te perdi. Sei por que, como e quando.

Tentei ser o que você queria. Busquei por uma mistura daquilo que eu almejava, com quem você queria que eu fosse. Em alguns momentos, tive sucesso. Na maior parte do tempo, consegui ser o que eu sonhava e te comprava para que acreditasse que eu era quem você imaginava.

É claro que eu sabia que não iria a lugar algum. Mas enquanto pude me enganar, as coisas caminharam. Eu só não sabia se ainda enganava os outros, muito menos você.

Foram tantos planos, tantas vontades e expectativas que eu não sabia qual a primeira a cumprir para te satisfazer, para te mostrar que sua escolha tinha sido certa. Em tão pouco tempo nos conhecemos, nos apaixonamos (será mesmo?), e nos casamos que eu parecia uma criança em loja de espelhos. Só me via sorrindo pra tudo.

Durante algum tempo o sonho até deu certo. É claro que eu nunca estava satisfeito. Eu queria o mundo, eu queria você, eu seria o mundo para você. Não tomei nenhuma decisão precipitada ou mal pensada. Tudo foi planejado, nada para se arrepender, nada do que se envergonhar. Até para se vender é preciso ter dignidade. E me vendi barato para você, em troca de alguns carinhos e alguns momentos especiais.

Foi preciso que a realidade aparecesse com cores e cheiros que eu sempre evitei ou que nunca tinha visto antes. A cor da morte, o cheiro do fracasso, e a visão daquilo que existia e que eu tentava ignorar.

Você não foi embora logo. Aliás, você demorou a acreditar, ainda ficou um tempo também em busca de uma explicação. Mas nessa hora nós já estávamos em extremos, você buscando a vida, querendo respirar, sair do afogamento; eu buscando a morte, a interrupção do pensamento, da respiração. Eu procurava a falta de existir.

Não tenho raiva da vida, não tentei acabar com ela por decepção ou vergonha, e sim porque percorri todos os caminhos que achei.

Se eu continuar andando, tenho certeza que haverá outras bifurcações, mas não tenho mais tesão em escolher e correr para ver o que acontecerá. Sigo andando, como que esperando o que tiver que vir.

Encontrar alguém será mero acaso. E se for alguém disposto a me acompanhar, terei medo. Quem há de querer o mesmo destino, o vazio?

Então vou andar até definhar em vontade de amar, em vontade de não viver, em vontade de não ter mais vontade alguma.

Tudo Sobre Tudo

Eu te perdi IV

Eu te perdi. Sei por que, como e quando.

Tentei ser o que você queria. Busquei por uma mistura daquilo que eu almejava, com quem você queria que eu fosse. Em alguns momentos, tive sucesso. Na maior parte do tempo, consegui ser o que eu sonhava e te comprava para que acreditasse que eu era quem você imaginava.

É claro que eu sabia que não iria a lugar algum. Mas enquanto pude me enganar, as coisas caminharam. Eu só não sabia se ainda enganava os outros, muito menos você.

Foram tantos planos, tantas vontades e expectativas que eu não sabia qual a primeira a cumprir para te satisfazer, para te mostrar que sua escolha tinha sido certa. Em tão pouco tempo nos conhecemos, nos apaixonamos (será mesmo?), e nos casamos que eu parecia uma criança em loja de espelhos. Só me via sorrindo pra tudo.

Durante algum tempo o sonho…

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Simples assim

Caça ou caçador?

Tudo Sobre Tudo

Comum III

Dessa vez fui com decisão. Dei a volta na pista de dança, mas ainda não sabia o que dizer para ela. Quando cheguei ao balcão de bebidas, ela se virou e disparei:

— Você vem sempre aqui?

Imediatamente fiquei vermelho. Que pergunta mais clichê e totalmente sem noção!

A gargalhada dela foi tão sonora que pareceu abafar o som alto da música.

— Gosto de caras com senso de humor. Você ganhou um bônus e pode fazer mais uma pergunta.

Um misto de alívio e susto. Rapidamente, considerei pedante a resposta. Ela tinha me chamado a atenção desde que eu havia chegado naquela festa, mas agora o que eu queria era sair daquela situação.

— Quer dançar?

— E a bebida?

— Depois peço outra pra você.

— OK

Eu gosto de dançar olhando para a pessoa. Ela olhava para baixo, admirando seus próprios movimentos. Difícil sair daquela situação. A…

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Talentos felinos

gatodebotas

Eles estão nas telas, nos palcos e na cultura popular. Aqui estão alguns dos mais famosos s gatos musicais.

Pobres e livres na versão de Chico Buarque para “História de uma gata”, em Os saltimbancos (aqui com Lucinha Lins)

Os fãs de Friends com certeza não se esquecem do grande hit de Phoebe Buffay (Lisa Kudrow), “Smelly Cat”.

Luis Melodia lembra as agruras da vida de um “Negro gato”.

T.S. Eliott encontra Andrew Lloyd Weber na Broadway. “Memory”, sucesso da montagem de Cats.

O Tremendão e uma gatinha manhosa.

Cat Stevens enfrenta um mundo selvagem. Ok. Foi um trocadilho infame.

 

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Paixão por gatos

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É fácil compreender a natureza do afeto que pode ser cultivado entre o homem e seu cão. Muito já foi dito sobre o companheirismo, a lealdade, o amor incondicional que o animal é capaz de manifestar de forma clara e inconfundível. Existe também uma grande inteligência, uma capacidade de aprender, de brincar e até de pressentir o perigo. Seu estado de espírito pode ser percebido com facilidade, traduzido em latidos, rosnados, abraços, lambidas e travessuras. Ele se entrega. Ele confia. Ele perdoa sempre. Um amigo canino pode ser uma festa ambulante e até contribuir para a socialização de seu humano arredio — não é para menos que uma das cantadas mais toscas do mundo é “qual é o telefone do cachorrinho?”. É sabido que a companhia de um cão é benéfica para a saúde física e mental, pois para atender suas demandas é preciso adotar horários e rotina. Acordar cedo, passear. E não sou eu quem diz isso e sim o oncologista David B. Agus, que cuidou de gente como Steve Jobs e Ted Kennedy, num livro chamado Um guia rápido para uma vida longa (Ed. Intrínseca).  Sim, existem muitos e bons motivos para se amar os cães. Muito mais inexplicável é a paixão por gatos.
Trata-se, basicamente de uma paixão platônica. Um gato não festeja ostensivamente quando você volta para casa. É capaz de passar horas cuidando da sua vida e só reaparecer roçando nas suas pernas ao sentir cheiro de comida. Ele não atende pelo nome. Não vem quando é chamado. Em geral, vem exatamente quando você está concentradíssimo no computador no meio de um trabalho. Nessa situação, a criatura não vê o menor problema em se colocar bem na frente do monitor e passear pelo teclado. Da mesma forma que escolhe o melhor lugar do sofá da sala para chamar de seu. Tive um gato que tomou posse da cadeira na cabeceira da mesa de jantar e que nunca aceitou pacificamente que eu ocupasse aquele lugar, como atestavam minhas canelas. Gatos não têm consideração. Parecem esperar adoração — pelo menos os egípcios, que sabiam das coisas, cultuavam uma divindade felina.
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Há quem tenha medo dos felinos por sua imprevisibilidade, pelos modos sorrateiros. Me fascina sua capacidade de olhar fixamente para um ponto perdido no espaço, absolutamente imóveis, como se assistissem a um filme que passa apenas dentro de suas cabeças. Me encanta que abandonem essa mesma imobilidade de repente e disparem para o outro lado do cômodo como se perseguissem alguma ameaça invisível. Como pouco mudam de expressão, é difícil adivinhar de primeira seu estado de espírito. Isso exige atenção. Com o tempo, sinto que se desenvolve uma espécie de sexto sentido, uma sensibilidade quase telepática para movimentos sutis, como o rabo levantado que expressa satisfação, a concentração que antecede o bote, pequenas mudanças de comportamento que deixam a gente com a pulga atrás da orelha, prestes a procurar o veterinário.
Não sou especialista, nem muito boa com animais em geral – bípedes ou quadrúpedes. Não tive bichos de estimação quando criança.  O primeiro gato só chegou na minha casa depois que tive três filhos, meio a contragosto.  Perdê-lo foi devastador. Todos nós sentíamos um imenso vazio quando não o encontrávamos pela casa, nem entretido na janela (onde chegou a caçar uma rolinha). E, sim, era esse gato que me mordia todas as vezes que eu sentava na cabeceira da mesa de jantar.
Arrisco dizer que se os cães são capazes de brindar seus humanos com a manifestação concreta do que é um amor incondicional, talvez os gatos permitam que seus humanos exercitem um tipo de amor que não espera retribuição imediata, que persevera mesmo sem ser correspondido na mesma moeda, que espera paciente por um mero ronronar e com isso se regojiza. Não sei bem explicar a paixão por gatos, mas creio que ela me torna uma pessoa melhor. (Por Livia de Almeida)
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Encantos desconhecidos

Uma morena e seus mistérios.

Tudo Sobre Tudo

Encantos Desconhecidos III

Apaixono-me por olhos. Não pela cor. Pelas histórias que contam, pelo que me dizem de sua dona. Não tenho preferência por tamanho, formato ou cor. Precisam dizer meu nome, ao me mirar. Sonho com os olhos da Morena.

Atraem-me os cabelos. Gosto quando emolduram o rosto. Mas verdade seja dita, são as mulheres que moldam os cabelos. É seu jeito de jogá-los para lá e para cá que acho que me chama a atenção. A virada de cabelo da Morena me fez virar o pescoço.

Intrigam-me seus pensamentos. Como aquelas que fazem questão de manter uma aura de mistério, mesmo quando guardam apenas pequenos segredos. O que passa pela cabeça dela? O que ela lê? Que música escuta? O que faz a Morena sonhar?

Seria fácil, se não fosse impossível saber o que pensa a cada minuto. Nem mesmo se ela tirasse os óculos escuros eu olhasse bem no fundo…

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Minha vida de carona

Pedestre por opção. E você?

Tudo Sobre Tudo

Dirigir III

Completar dezessete anos trazia uma preocupação e uma expectativa para os meninos, e acho que deve ser a mesma coisa nos dias de hoje. Tínhamos que nos apresentar para o Serviço Militar e começava a contagem regressiva para se tirar a carteira de motorista. Superada a primeira questão, o segundo tema passava a dominar as conversas. A grande dúvida era descobrir se o pai daria permissão para dirigir o carro da família. Quando chegou a hora, lá fui eu para as aulas na autoescola, coisa que achei extremamente maçante, embora o número de horas necessárias para o exame fosse totalmente burlado. Definitivamente, eu não gostava daquilo. Havia uma pressão enorme, vinda de todos os lados, tão grande quanto aquela do vestibular. Passar no exame para motorista era uma espécie de prova de macheza.

Discutíamos o desempenho e as curvas que podiam ser feitas pelos modelos da época: Brasílias, Chevettes, Fuscas…

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Revelações do passado

Areal

– Que diabos é essa estrutura redonda aqui embaixo?

– Acho que é uma arena de touradas.

– Arena? No Rio? Você está maluca? Deve ser o estádio do Fluminense.

– Aposto que é uma arena. Havia uma em Laranjeiras. Tenho certeza disso! E estádio do Fluminense só por volta de 1919.

Estávamos os dois embasbacados diante de uma visão panorâmica do Rio de Janeiro do tempo do onça. (É, coisa tão antiga que merece mesmo uma expressão tão fora de uso quanto essa). Hipnotizados, eu e Mauro, coautor deste blog. E era apenas a entrada da exposição Primeiras poses, atualmente em cartaz no Instituto Moreira Salles, na Gávea. O painel gigante ocupa uma parede inteira e suas dimensões generosas permitem que os visitantes passeiem pelos contornos conhecidos da cidade (o vídeo abaixo mostra a imagem). Um Corcovado sem estátua. Um Pão de Açúcar sem bondinho e sem Urca. Uma longa avenida de palmeiras imperiais com um palácio de linhas austeras – a rua Pinheiro Machado. Meus olhos esquadrinhavam a imagem como se lessem um livro, como se ela pudesse me responder perguntas mentais que eu me fazia. Bom, o palácio ainda conservava o jeitão neoclássico, muito diferente do estilo bolo de noiva eclético que conhecemos hoje em dia. Portanto, imaginei, a foto deveria ser da primeira década do século XX ou antes. Se a memória não me falha, a estrutura foi reformada naqueles anos para receber um rei belga que acabou furando a visita.

(Não, leitor, não fui vítima de alguma overdose de Radio Relógio e seu “Você sabia?”. É que em uma encarnação recente costumava escrever sobre exposições para uma revista de circulação semanal e fotografia histórica era meu fraco.)

Descobri depois que aquela imagem espetacular era obra do fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), autor de alguns dos mais preciosos registros da cidade no século XIX. Trata-se, na verdade, da junção de três negativos de vidros, ou seja, três fotos diferentes que se completam. Em tempos de pixels e megazooms, é incrível imaginar que aquelas chapas de 1895 seriam capazes de render tamanha ampliação e com tal qualidade.

palaciomonroe

Palácio Monroe, no Álbum da Avenida Central

Na verdade, tudo o que escrevi até agora tem como objetivo tirar você, leitor, da cadeira, e ir direto ao Instituto Moreira Salles, caso resida no Rio. A foto de Ferrez é apenas um aperitivo. A exposição traz 450 imagens da cidade, produzidas entre 1840 e 1930, distribuídas em ordem cronológica por seis ambientes. Tudo parte do incrível acervo fotográfico do Instituto. Além de Ferrez, é possível se regalar com trabalhos de pioneiros como Auguste Stahl, Revert Klumb, Georges Leuzinger (adoro suas panorâmicas) e Augusto Malta. Sem dúvida um dos destaques do percurso é a galeria reservada ao Álbum da Avenida Central, com seu traçado, lotes e seus proprietários, plantas e fotos das construções novinhas em folha. É um exercício de imaginação enxergar na avenida Rio Branco os traços daquela obra orgulhosamente inaugurada pelo prefeito Pereira Passos em 1905. Pouquíssimas estruturas sobreviveram à passagem do século. As fotos mostram o derrubado morro do Castelo bem pertinho da avenida, com a encosta coberta por lençóis e roupas estiradas para quarar.

O progresso clamou o morro em 1922 e levou um bonde solitário a varar o areal de Copacabana na via que viria a ser conhecida como rua Barata Ribeiro. Eliminou a igrejinha construída sobre a pedra, no Posto 6, e a modesta colônia de pescadores. (Na foto de Ferrez, de 1895, dá para ver galinhas andando na areia). Trouxe mais higiene e luz elétrica, como registrou Malta. Exigiu espaço e aterros na Baía de Guanabara. A natureza às vezes se revoltava, como mostram as fotos das ressacas na avenida Beira Mar, nos tempos em que realmente ficava na beira do mar. Tudo isso está em exposição. Particularmente caro ao meu coração é o segmento devotado aos primórdios de Ipanema, quando o bairro era apenas um areal e se erguia solitária a residência de um comerciante que gostava de fotografia. A casa ficava onde se encontra o Colégio São Paulo, na avenida Vieira Souto. Para quem nasceu e cresceu nessa quadra, tentar fazer uma correspondência entre passado e presente é uma experiência atordoante. (por Livia de Almeida)

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A essa altura, acredito que até os leitores de fora da cidade já estejam um pouquinho curiosos. Então seguem duas boas notícias. A primeira é que a mostra fica em cartaz na antiga moradia do embaixador Walther Moreira Salles até 31 de dezembro, ou seja, há tempo de sobra para ver e rever várias vezes. Pode acreditar, o conjunto merece visitas repetidas. A outra boa notícia é que a entrada é franca, como acontece nas exposições do centro cultural. A casa é linda, uma joia modernista adornada por jardins e azulejos de Burle Marx.

Tenho uma única reclamação a fazer. E é coisa séria! Uma exposição como Primeiras poses merecia um belo de um catálogo.

Ah, mais uma coisa. Sabe aquela tal estrutura circular que eu e o Mauro discutimos no início deste texto? Pois é. Era mesmo uma arena de touradas que existia em Laranjeiras, mais ou menos onde hoje em dia fica o mercadinho São José. Eu estava certa! Descobrimos também que as touradas foram banidas em 1907 pelo prefeito Souza Aguiar. Afinal de contas, a selvageria não devia combinar muito bem com o projeto de cidade moderna que emergia então.

 

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